terça-feira, 29 de maio de 2012

incomplete 1

O céu ainda estava pintado de um roxo escuro,mas as estrelas já tinham sumido.Pequenos riscos de laranja e vermelho podiam ser vistos distantes,sinais de que o sol não demoraria a nascer.No fundo,não havia nenhum movimento,todos provavelmente ainda estavam dormindo.O vento soprava levemente de tempo em tempo,fazendo as folhas das arvores e galhos moverem minimamente.

Ainda era cedo.

Uma bela mulher de cabelos cor-de-rosa e olhos verdes estava sentada confortavelmente na janela,observando silenciosamente o lado de fora.Seus pés estavam embaixo de si,    suas costas contra a parede;pequenas almofadas estavam ao seu redor,uma verde escura sendo segurada em seu colo.Estranho,mas ela sempre gostou de acordar cedo.Tudo era tão quieto,tão calmo...totalmente oposto ao que estava vivendo.

Uchiha Sakura,como era chamada agora,poderia definitivamente dizer que sua vida era um completo desastre.A unica coisa que ela sempre quis...era ser amada.Mas parecia que isso não era possivel para ela,como se esse desejo estivesse muito longe de seu alcance.Ela nunca entendeu o porquê---ela não achava que era pedir muito.

Seus pais nunca a amaram e,se eles o fizeram,certamente não se incomodaram em mostrar.Eles eram sempre tão frios,tão distantes...ela nunca teve uma chance de falar com eles,de lhes dizer o que estava acontecendo em sua vida...eles nunca estavam lá quando ela estava feliz,ou quando ela estava triste,eles nunca a confortaram quando tinha um pesadelo,ou quando estava com medo de coisas simples,como toda criança tinha,eles nunca tiraram um tempo para ler estórias,ou cobri-la a noite...em outras palavras,eles nunca estavam lá.

Seu pai estava sempre ocupado com trabalho e,quando ele não estava,não se importava com ela;sua mãe,mesmo não tendo um trabalho,estava sempre muito ocupada com suas amigas,ou com suas atividades diarias--fazendo compras e outras coisas---e nunca tinha tempo para ela.De qualquer forma,ela nunca quis passar tempo com ela.

Ela constantemente se pegava pensando se eles a odiavam,mas então ela se lembrava que nunca tinha feito nada de errado...pelo menos nada de que ela se lembrasse.

Existia apenas uma pessoa que amou ela de verdade.Mas ele a muito se foi,deixando-a sozinha.Bem,talvez não sozinha...ela tinha seu marido,mas...mas a relação entre os dois parecia sua relação com seus pais.Ele não ligava e,sinceramente falando, por que ele o faria?Quem poderia culpa-lo?Afinal,a razão pela qual eles se casaram não era amor.

Quando seu pai lhe disse que ela teria que se casar com uma pessoa que ela não sabia nada sobre,apenas pelo bem de suas familias,ela sabia que não poderia dizer não,assim como ela sabia que não seria feliz.Ela nunca imaginou que isso seria tão ruim.

E como ela tinha dito antes,ninguém podia culpa-lo por não querer nada com ela.Ela também não queria nada com ele.Ou talvez...talvez ela quissesse...ok,ela queria.Ela não tinha pensado que...que talvez,apenas talvez,ela poderia encontrar nele o amor e o conforto que ela sempre precisou.Quando ela o viu pela primeira vez,percebeu que ele era uma pessoa fria,talvez mais fria que seu proprio pai,e que ele nunca pareceu se importar com nada que acontecia a sua volta.

Ela sabia que ele também não estava feliz com o casamento,por ele não ter dirigido a palavra a ela.Mas mesmo assim,ela ainda tem esperanças.Esperanças de que um dia ele irá mudar sua cabeça..que ele irá...não sei...pelo menos começar a...gostar dela?Entretanto isso não aconteceu;de primeira,ela o culpou,pois ela sabia que tinha tentado seu maximo para fazer seu casamento funcionar.Arranjado ou não,ela realmente queria que...que ficasse tudo bem,no final.Mas logo ela percebeu que era sua culpa.Sua culpa por ainda ter esperança,sua culpa por pensar que ele iria querer ela a sua volta.

Era sua culpa ter quebrado seu coração.

Eles viviam na mesma casa,mas raramente se viam.Ele estava sempre trabalhando ou... quem sabe?Talvez ele passasse seu tempo com outra pessoa.A rosada não era estupida,ela sabia que ele tinha alguém lá fora,outra mulher.Afinal,ele era homem,e ela nunca deixou ele a tocar.Não é como se ele tivesse mostrado algum interesse,e não era como ela fosse dormir com ele.Em outras palavras,era como se eles não fossem casados.Não.Isso soaria bem demais.Porque,do jeito que os outros viam,eles eram casados e se amavam,vivendo uma vida muito feliz.Afinal,era disso que o seu casamento se tratava:farsa.Basicamente,eles não precisam amar um ao outro,mas também não podem viver suas vidas.

Ela não pode ir a faculdade como ela sempre quis (Por que? Porque seu pai lenta e cuidadosamente explicou que as pessoas não viam isso como uma boa coisa;iriam pensar que ficar com seu marido não era suficiente para ela e que ele não a tratava bem.Em outras palavras,ela não podia ir a faculdade ou ter um trabalho pois isso iria arruinar a reputação dele),ela não podia ter amigos de verdade (Por que? Porque ela iria ter que mentir para eles sobre seu casamento;e todos nós sabemos que verdadeiros amigos não tem segredos),ela não podia viajar como ela sempre quis (Por que? Porque não seria bom se as pessoas a vissem viajar sem seu marido;e seu marido...bom,não tinha como eles conseguirem passar tanto tempo juntos),ela não podia se apaixonar por ninguém (Por que?Precisamos mesmo falar sobre isso?)

A vida dele também não era tão melhor,embora ele pudesse sair e transar com quantas mulheres ele quisesse,talvez até mesmo ter algum tipo de relação secreta com elas.Mas ela não podia;não somente por ela não ter ocasiões onde ela podia encontrar homens,mas  também porque...bom,ela não era uma bunda.Ela sabia que nunca poderia dormir com outro homem e depois encarar o seu marido.Ela nem mesmo queria tentar.Ela apenas...apenas não podia.

Lentamente,ela desviou seu olhar da  janela,apenas para olhar para suas mãos.Hoje...hoje era dia vinte e oito de Março...seu aniversario.Para várias pessoas,não era um dia especial.Para ela...também não era um dia especial.Doia,sim,mas ela já estava acostumada com isso.Quando ela ainda vivia com seus pais,eles tiravam um tempo para desejar-lhe feliz aniversario e,mesmo que fossem palavras frias e indiferentes,ela tinha aprendido a aprecia-las.Depois eles lhe dariam dinheiro para comprar um presente e...bom,era isso.

Entretanto,agora,eles não se incomodavam em ligar.Seu marido nunca estava interessado em seu aniversario --mesmo que eles fossem casados a dois anos,ela duvidava que ele sabia a data de seu nascimento.
Suspirando,se levantou de seu confortavel lugar e caminhou até o banheiro para tomar um banho.Demorou um pouco para lavar seu cabelo e seu corpo,sabendo que,como sempre,estava sozinha em casa.Ela saiu do banheiro meia hora depois,com uma pequena toalha branca enrolada em seu corpo.Atravessou o quarto e adentrou seu closet;tirou uma peça de roupa intima,um par de calça skinny escura,uma blusa roxa de mangas longas e um par de saltos altos,e os vestiu,antes de,lentamente,fazer seu caminho até as escadas.

Como esperado,tudo estava silencioso.Mas isso não a incomodava antes,então por que se sentia assim agora? 'Eu deveria comemorar...é meu aniversario,no fim das contas.' disse para si mesma e tentou sorrir,mas logo percebeu que não conseguia.Não chorou,mas doia...doia muito.E,sinceramente,não sabia quanto mais poderia aguentar.

~~

O dia passou rapidamente,a esperança de alguem lembrar de sua existencia nunca deixando sua mente e seu coração.Já estava quase anoitecendo quando chegou em casa com algumas sacolas em suas mãos e um pequeno sorriso em sua face.Comprar lhe fez bem,como sempre fazia.

-Shiro,-chamou enquanto atravessava a sala de estar,colocando suas sacolas no sofá.

Shiro era um homem de meia idade,um dos empregados - na verdade,apenas ele e sua  sobrinha,Yuki,trabalhavam lá.Não tinha certeza do que ele deveria fazer,mas ela podia apenas achar que ele ajudava o suficiente. Afinal,seu marido não era o tipo de pessoa que manteria pessoas sem uso algum ao seu lado.Não era como se estivesse reclamando,até gostava do homem,não era apenas por ele estar sempre na casa,o que a fazia se sentir menos sozinha,mas porque ele também sabia o que dizer para acalma-la nas raras situações em que ela apenas... quebrava.

Estando sempre ao redor,era obvio que ele sabia a situação que ela e seu marido estavam,e ela sabia que ele dava o seu maximo para tentar compreender,sem se envolver muito.E isso era bom,de certo modo.Era bom saber que existia alguem que tentava entender o que ela vivia.E não importava que ele não entendia completamente --era impossivel,de qualquer forma;o que importava era que ele tentava.

-Sim,senhora.-ele disse ao entrar na sala.

-Alguém ligou?-perguntou esperançosa,seus olhos verdes brilhando um pouco.

-Não,senhora.Ninguém ligou.-ele respondeu,balançando a cabeça.

O pequeno sorriso em sua face sumiu quando ela ouviu essas palavras;franziu o cenho-Nem mesmo meus pais?-perguntou,sua voz calma e desapontada.

-Não,senhora.

Suspirou e passou uma mão nos cabelos cor-de-rosa.Por que ela ainda esperava eles ligarem?Eles não ligaram nos outros dois aniversários.Por que agora? Balançou a cabeça,forçando um sorriso enquanto falava- Tudo bem,obrigado.Você pode ir embora;amanhã é Sabado.-Shiro assentiu e deixou a sala.Outro suspiro escapou seus labios enquanto pegava as sacolas e lentamente subia as escadas.

~~

Mais tarde naquela noite,Sakura entrou na cozinha,já vestindo seus pijamas.Ela vestia um par de shorts da cor preta curtos e uma regata rosa escuro;seu cabelo estava preso em um coque frouxo,com apenas algumas mechas rebeldes caindo em sua face.Cruzou o local para se aproximar da geladeira,abrindo-a quando a alcançou.Pegou uma garrafa de vinho e serviu-se uma taça,antes de caminhar em direção a sala de jantar e sentando-se em uma das cadeiras.A mesa era longa,longa o bastante para acomodar doze pessoas.

'Que ironico.'pensou,balançando a cabeça levemente.'Para que tantas cadeiras sem ninguém em casa?'

O som da porta da frente fechando a tirou de seus pensamentos,fazendo-a franzir o cenho,sem entender quem poderia ser.Mas logo se lembrou que já estava tarde,percebendo que só podia ser uma pessoa.Sua suposição foi confirmada quando ele entrou na sala momentos depois.

A camisa de botões que o mesmo vestia estava com os tres primeiros botões abertos,mostrando uma pequena parte de seu peito nu.As mangas estavam enroladas até seus cutuvelos,mostrando seus ante-braços musculosos,a gravata preta frouxa ao redor da gola e sua camisa não estava dentro das calças negras do terno.Os cabelos negros arrepiados estavam mais bagunçados que o usual e sua expressão era vazia,como sempre,embora seus olhos negros demonstravam o quão cansado estava.Ele arqueou uma sobrancelha ao ver a taça de vinho em sua mão.

-Celebrando?-ele perguntou,um tom quase zombeteiro em sua voz.Lembram do que eu disse antes?Sobre eles quase não se virem?Bom,quando eles se viam,certamente não era a melhor coisa que poderia acontecer.Ela não sabia porquê,mas ele era sempre assim;ele sempre zombava dela e jogava coisas em sua cara que,sem ele saber,a machucavam.E ela não sabia porquê,já que,como ele,nunca desejou esse casamento.

Uma vez,lhe ocorreu que ele deveria odia-la pois ela não negou o desejo de sua familia,mas então ela percebia que ele não tinha o direito de pensar assim.Afinal,ele também poderia ter recusado.Tentou varias vezes entender seu comportamento,tinha perdido várias noites chorando e pensando em todas as possiveis razões.Contudo,ela sempre chegava a conclusão que ele não tinha uma razão.Ele não precisava de uma razão para odia-la.Ele simplesmente o fazia.E talvez,um dia,ela poderia sentir o mesmo.

-Sim.-respondeu,assentindo,antes de tomar mais um gole do vinho.

-Sério?-ele perguntou,arqueando uma sobrancelha em divertimento.-Celebrando o que?

Balançou a cabeça levemente,antes de encara-lo com um sorriso doce e falso.-É o meu aniversário!-exclamou em uma voz animada e observou quando algo parecido com choque brilhou em seus olhos por um segundo,antes de desaparecer em sua mascara sem emoção.-Não vai me desejar um feliz aniversário?-perguntou,fingindo estar desapontada.Ele continuou quieto e ela usou isso em sua vantagem.-Tudo bem.-disse terminando de tomar o resto do vinho,antes de se levantar e caminhar alguns passos em direção a ele.-Mais algumas horas e esse dia acaba...-apontou para o relogio preso a parede.Já era dez da noite.

-Não se sinta culpado por não saber,ou por não lembrar...afinal,nem mesmo meus pais sabem que eu existo,então você está livre de qualquer coisa...Eu não tenho amigos,ou algum outro parente...então o fato de meu proprio marido não se lembrar disso não me afeta muito.-Sakura sentiu seus olhos se encherem com cada palavra que dizia,mas continuou,recusando deixar as lagrimas cairem.-No caso de você não ter percebido ainda,eu também não queria me casar,Sasuke.-disse e observou o moreno franzir o cenho,provavelmente não entendendo o que o casamento deles tinha a ver com seu aniversário.

-Estou te dizendo agora,porque raramente eu consigo falar com você e porque eu quero que você saiba disso.-explicou e colocou a taça em cima da mesa.-Boa noite.-disse ao passar por ele,pretendendo ir dormir.Contudo,ela nem teve chance de dar dois passos longe dele,quando ela sentiu algo que a fez parar.

-Alias,-ela comentou,a voz tremendo um pouco.-Bom perfume.       

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